Há alguns anos, uma grande discussão tomou conta do Brasil: a exposição excessiva de crianças no ambiente virtual. Na época, a preocupação estava centrada na adultização e erotização infantil — e eu mesmo escrevi um artigo sobre o tema. Hoje, esse debate continua atual, mas ampliado. A questão não é mais se devemos permitir o uso da internet, e sim como ajudar as crianças a viverem bem dentro dela.
Recentemente, iniciei um curso na área e, mais uma vez, percebo que o verdadeiro desafio está em equilibrar proteção e empoderamento. Não há mais volta. A internet não é uma ameaça a ser combatida, mas um território a ser compreendido, explorado e protegido. O binômio “proteger versus empoderar” precisa ser revisitado: o que tem pesado mais na balança?
A Internet: Espelho e Extensão da Sociedade
É inegável que o ambiente digital abriga conteúdos impróprios e até nocivos. Mas seria injusto ignorar o outro lado: a internet é também um manancial de conhecimento, cultura e oportunidades. Ela é uma ferramenta poderosa de inclusão e cidadania.
É através da rede que o produtor rural leva sua voz para o mundo, e o jovem da periferia vislumbra a possibilidade concreta de mudar de vida.
A internet conecta, engaja e — principalmente — dá identidade e senso de pertencimento a crianças e adolescentes. Eles se reconhecem nas comunidades que constroem, nos grupos em que participam, nas causas que defendem. Mas é claro: nem tudo é brilho.
A rede também esconde armadilhas sofisticadas, baseadas em design manipulativo e algoritmos que exploram a atenção humana para gerar lucro. Em termos simples, as plataformas aprendem a capturar o nosso foco e transformá-lo em dinheiro — explorando o sistema neurológico de recompensa, conhecido como sistema ativador reticular ascendente.
Ética: do Mundo Físico ao Mundo Digital
Certas regras que aplicamos ao mundo real precisam atravessar o espelho digital.
Se na rua dizemos às crianças “não fale com estranhos”, por que fazemos o oposto nas redes sociais?
Se não jogamos lixo nas calçadas, por que espalhamos fake news?
Se não praticamos furto, por que copiamos informações alheias sem consentimento?
E se condenamos o bullying, por que tolerar o cyberbullying?
Educar para o uso da internet é estender ao digital o mesmo senso ético que vale fora das telas.
A Proteção de Dados e a Ilusão do “Aceitar Tudo”
Quando navegamos em sites, somos constantemente convidados a “aceitar tudo”. Mas o que estamos realmente aceitando?
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) determina que as empresas só podem coletar informações estritamente necessárias — é o princípio da minimização de dados. Ainda assim, muitos usuários continuam a expor dados pessoais (e sensíveis) sem refletir sobre as consequências. Cada clique deixa um rastro digital.
Ao informar o CPF na farmácia para obter desconto, por exemplo, você troca dados sobre sua saúde por alguns reais de economia. E isso tem um custo: a construção silenciosa de um perfil comportamental sobre você.
Entretenimento, Propaganda e o Olhar Infantil
Outro ponto crítico é a mistura entre entretenimento e publicidade.
Muitos conteúdos parecem inocentes, mas escondem mensagens comerciais cuidadosamente disfarçadas. Isso é ainda mais perigoso quando o público é infantil — crianças não têm maturidade para diferenciar diversão de propaganda. Assim como a televisão, a internet pode apassivar.
Dependendo do tipo de conteúdo, ela tira da criança o tempo de pensar, brincar e criar. E, em alguns casos, torna-se o canal por onde passam abusos, desafios perigosos e pornografia disfarçada de entretenimento.
O acesso a esse tipo de material é supostamente restrito à idade legal — mas, na prática, basta uma autodeclaração para burlar o sistema.
O Poder e o Perigo da Internet
A rede pode aproximar pessoas, mas também pode recrutar para o fanatismo, o extremismo político ou religioso, e espalhar ódio. As redes sociais, hoje, têm poder suficiente para influenciar eleições, dividir sociedades e moldar opiniões. É a mesma força que educa… e que destrói.
As guerras contemporâneas não são apenas físicas — são híbridas. A internet tornou-se campo de batalha ideológica, informacional e emocional. E há, ainda, um problema social que raramente ganha destaque: o abismo digital.
Nem todos têm acesso à internet, e quem tem, nem sempre acessa com qualidade. Grande parte da população brasileira ainda depende apenas do celular, com planos limitados e conexões precárias. A exclusão digital não é só técnica — é cultural.
Muitos não sabem onde buscar as informações que realmente precisam. Saber “mexer” em um aplicativo não significa compreender o mundo digital.
Usar, e Não Ser Usado
O desafio é cultivar uma cultura digital consciente.
Precisamos formar cidadãos capazes de usar a tecnologia, e não de serem usados por ela. É necessário entender que a internet não é boa nem má — é reflexo de quem a usa.
Como já dizia o velho provérbio romano: “Uti non abuti” — usar, mas não abusar.






